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Carmelitana, de Paris, fala sobre rotina e pesquisas para combater o covid-19

Carmelitana, de Paris, fala sobre rotina e pesquisas para combater o covid-19

Hoje, o depoimento é de Moara Lemos diretamente da França. Bióloga com pós-doutoramento pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (2015), há quatro anos trabalha no Institut Pasteur de Paris e recentemente foi aprovada como pesquisadora assistente no mesmo Instituto.

A França entrou em quarentena no dia 17 de março, não esperávamos que o comércio fosse fechar e que apenas os essenciais estariam disponíveis. Todas as vezes que vamos sair às ruas, é necessário preencher uma autorização de deslocamento e tê-la sempre conosco, pois a polícia pode pedi-la e, caso não tenha em mãos, é cobrada uma multa, podendo até ser preso caso seja pego mais de três vezes sem a autorização. Esse processo é feito por um aplicativo que gera um "horário de saída", liberando, por um determinado tempo, o acesso às ruas. Para compra de produtos indispensáveis, é possível sair por um prazo de no máximo 1h e por até 1km de distância da residência. Pra se exercitar, a pessoa também pode sair de casa por até 1h no período de 7 da noite às 10 da manhã. No caso de deslocamento para o trabalho, a pessoa possui uma autorização especial e deve andar com ela impressa para mostrar à polícia, caso necessário. A vigilância, nesse quesito, está muito rigorosa e as medidas de prevenção e higiene são cobradas em todos os momentos, disponibilizadas inclusive na entrada de supermercados.

Na França hoje, são mais de 120 mil casos confirmados e apenas pessoas com sintomas mais graves e aqueles que foram a óbito estão sendo testados, uma vez que não existe quantidade de teste suficiente para todos, sendo esse um dos grandes problemas, afinal, não é possível ter total noção da dimensão da situação sem que uma parcela considerável da população seja testada. Existem dois tipos de testes mais usados, um que detecta os anticorpos contra o COVID-19 no sangue e a análise molecular que usa a PCR (Reação em cadeia da polimerase) que vai detectar a presença do código genético do vírus.

Já morreram mais de 18 mil pessoas, e mais de 36 mil pessoas já se recuperaram. O número de internações tem caído pelo terceiro dia consecutivo e isso é muito bom, pois a tendência é desafogar o sistema de saúde que está completamente saturado. Em alguns momentos, as pessoas estavam sendo levadas para o interior do país em vagões de trens que viraram ambulâncias, em busca de vagas para atendimentos e também foi cogitado levar alguns pacientes para outros países, como Alemanha e Áustria. Agora, a situação está tendendo a se estabilizar, no entanto, antes da reabertura do comércio e da volta às aulas, os números devem se reduzir em grande escala para que não haja a possibilidade de um "segundo pico" da epidemia, podendo ser ainda mais forte, uma vez que sem muito conhecimento sobre o vírus, não se sabe se a imunização será efetiva para aqueles que já tiveram a doença. 

Existem inúmeras pesquisas para entender a biologia do vírus, qual o mecanismo de entrada nas células e como isso pode ser impedido, pois é nesse momento que ele manda o seu RNA (código genético) para nossas células para que elas trabalhem a seu favor produzindo as proteínas necessárias para a construção de novos vírus que vão brotando da superfície das células. Só no Instituto Pasteur, mais de 200 pesquisadores estão se dedicando totalmente às pesquisas com o COVID-19.

São inúmeras pesquisas sobre drogas que estão sendo testadas contra o coronavírus e algumas delas parecem ser promissoras. A Johnson e Johnson investiu alto na produção de um candidato à vacina que será testada já no próximo semestre e possui grandes chances de liberação. Caso seja comprovada a eficiência, já no início do próximo ano [será liberada] para os profissionais da área da saúde que atuam na linha de frente contra o vírus, o que, para uma vacina, é algo muito rápido.

Estou bastante confiante que não vai demorar muito para tudo passar, os medicamentos vão aparecer, uma possível vacina e soluções que façam a gente voltar a ficar mais confiante para andar na rua, para retomar uma rotina, para se redescobrir o mundo, pois, como muitos têm falado e que eu também acredito, o mundo que a gente conhecia, ele não existe mais e agora devemos nos preparar para o novo mundo o qual vamos construir. Estamos nesta época da epidemia que é dura e severa, mas eu acredito que teremos oportunidade de recriar as coisas e ter uma visão mais humana e mais generosa com o outro, entendendo mais o conceito de comunidade, pensando que um se protegendo, ele acaba protegendo o outro.

Moara Lemos.
Moara Lemos.

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