Carregando...
Compartilhar

Antônio de Pádua Risolia Barbosa, de forma clara e precisa, fala sobre o Covid-19

Antônio de Pádua Risolia Barbosa, de forma clara e precisa, fala sobre o Covid-19

Depois de ter rodado por três continentes e cinco países - Itália, Estados Unidos, Espanha, França e Japão - com depoimentos de carmelitanos sobre a pandemia que assola o mundo, Covid-19, voltamos ao Brasil com, nada mais nada menos, Antônio de Pádua Risolia, carmelitano que atualmente é responsável pela Coordenação Tecnológica que tem por missão a implementação da produção nacional de vacinas, kits para diagnósticos e biofármacos em Bio-Manguinhos / Fiocruz:

No início da segunda quinzena de março deste ano, os casos de vítimas do Covid 19 no mundo já atingiam números alarmantes: mais de sete mil mortos e centenas de milhares de pessoas contaminadas. Países como França, Itália e Espanha começaram a estabelecer restrições mais rígidas à circulação de pessoas nos espaços públicos em todos os países, fechando todos os parques e jardins da capital, além de atividades comerciais não essenciais e a suspensão de voos domésticos e internacionais. Dessa forma, permaneceram praticamente até semana passada, quando retomaram timidamente algumas atividades. A Europa registra hoje mais de 156.400 mortos e mais de 1,7 milhões de casos de infeção confirmados, mais de 282 mil mortos. Nos Estados Unidos, são mais de 80 mil mortos e, no mundo, a OMS aponta para mais de quatro milhões de casos e 285 mil mortes.

No dia 12 de março, o número de casos no Brasil passou de 1,4 mil, com 89 óbitos, sendo que, na região sudeste, Minas Gerais e Espírito Santo registravam um óbito cada, oito no Rio de Janeiro e 20 em São Paulo. Na cidade do Rio de Janeiro, os casos se concentravam predominantemente na Zona Sul (Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon) e na Barra da Tijuca, regiões de classe média e dos mais abastados. Porém, assim como em São Paulo, o Estado começou a preparar medidas de restrição à circulação, com o fechamento de bares, restaurantes, comércio em geral, permanecendo em funcionamento apenas supermercados, bancos e farmácias.

Nesse mesmo dia, a Fiocruz lança sua primeira versão do Plano de Contingenciamento, que regrava as formas de trabalho da Instituição, para o enfrentamento da pandemia que se avizinhava, estabelecendo o tele trabalho para pessoas do grupo de risco e mulheres grávidas. Bio-Manguinhos, assim como outras Unidades da Fiocruz, já havia se lançado, em parceria com Universidades e Institutos de Pesquisa de várias partes do mundo, na busca por desenvolver e produzir uma vacina e kit para diagnóstico para Covid 19.

O Kit Molecular SARS-CoV2 foi desenvolvido em 45 dias e distribuído aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) dos estados. Esse Kit é capaz de detectar a infecção viral desde o primeiro dia do aparecimento dos sintomas, pois detecta quantidades mínimas de material genético do vírus nas amostras. Trata-se de teste que exige infraestrutura laboratorial e pessoas altamente capacitadas para sua realização, permitindo o resultado em pouco mais de duas horas. A produção inicial foi de 20 mil testes, devido à dificuldade da aquisição de insumos e equipamentos, porém já alcançamos a marca de produção de um milhão de testes por mês, devendo aumentar  em 50% nos próximos meses.

Outro Kit é o TR DPP (teste rápido), resultado de parceria com uma empresa americana, que detecta, simultaneamente, anticorpos das classes IgM (infecção recente, a partir do 5º dia após o início dos sintomas) e IgG (memória) de forma independente e diferencial. Esse teste dispensa estrutura laboratorial e pode ser utilizado em ambulatórios e unidades básicas de Atenção Primária de Saúde. O resultado sai em, no máximo, 20 minutos. A orientação para indicação desse teste é após sete dias do início dos sintomas e serve mais para a vigilância epidemiológica.

Mesmo com esse esforço todo, a testagem no Brasil é ainda muito baixa e os números de infectados certamente são muito maiores do que os apresentados, pois a produção ainda é muito pequena em relação à população do país e, literalmente, o mundo todo quer comprar Kits, onde quer que sejam produzidos. Essa tragédia vem reforçar a importância fundamental da função estratégica do Estado na produção de insumos para a saúde, sejam kits, vacinas, biofármacos, equipamentos laboratoriais e muitos outros utilizados no SUS.

Em relação ao desenvolvimento de uma vacina eficaz contra esse vírus, há no mundo uma corrida das grandes empresas multinacionais produtoras e centros de pesquisa nessa busca. Uma dessas empresas anunciou, na semana passada, o início de estudos em humanos (fase I de segurança) ainda no primeiro semestre. Porém, ainda levará algum tempo para que o registro se efetive, não devendo estar disponível ainda em 2020, se tudo der certo. Mesmo assim, como produzir vacinas para toda a população mundial? Nenhum produtor ou todos eles reunidos têm essa capacidade. A produção de uma vacina planejada adequadamente leva em torno de um ano para ser comercializada. Então, em curto prazo, não teremos uma vacina disponível para todos, pelo menos no Brasil.

 Ademais, não estamos nada próximos de ter um medicamento eficaz no tratamento dessa virose, apesar das inúmeras pesquisas realizadas no Brasil e no mundo. Recentemente, o The British Medical Journal, um dos periódicos científicos mais respeitados no mundo, publicou um artigo em que o uso da cloroquina é potencialmente prejudicial  e não recomendado para tratar o Covid 19, devido aos comprovados efeitos colaterais e amplamente conhecidos pela classe médica.

Enquanto isso, a pandemia avança no país e em menos de dois meses já temos mais de 11,5 mil mortos e quase 170 mil casos da doença que se espalha exponencialmente. Cada pessoa pode contaminar, ao mesmo tempo, de duas a três pessoas e assim sucessivamente. A Covid 19 é uma doença pouco conhecida e sua transmissão é terrivelmente rápida, assim como seu avanço no organismo humano. Nesse momento, a única alternativa que os pesquisadores recomendam é restringir mais ainda o isolamento social, estabelecendo a proibição de circulação das pessoas, como fizeram os países da Europa há mais de dois meses. O Brasil teve esse tempo para se preparar e não conseguiu, levando agora quase à ocupação total de leitos hospitalares das grandes cidades. Essa situação se torna caótica, porque as pessoas gravemente adoecidas não estão conseguindo acesso à internação e, possivelmente, não o terão.

Infelizmente, o pior ainda está por vir. A doença se desloca das regiões mais ricas e de classe média das grandes cidades e migra para pessoas com grave vulnerabilidade social, por viverem em favelas com precário saneamento básico, mínimas condições de isolamento social, dado que várias pessoas coabitam minúsculos ambientes e estão cercadas por vizinhos na mesma situação.

Precisamos, infelizmente, reaprender a viver socialmente. Estar à distância é a nova ordem. Há pouca esperança de se voltar a frequentar festas, trocar abraços e cumprimentos tão cedo, pois não sabemos se o vírus pode infectar a pessoa mais de uma vez.

Antnio de Pdua Risolia Barbosa.
Antônio de Pádua Risolia Barbosa.

CONTATO

© COPYRIGHT 2020 - NANA DE MINAS. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.