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Um Grande nunca se vai sem deixar um legado. E este é o caso da Teresa Doceira

Um Grande nunca se vai sem deixar um legado. E este é o caso da Teresa Doceira

Inúmeras foram as homenagens para Teresa Doceira, 93 anos, na ocasião de seu falecimento, no dia 28 de julho. Retratada de formas carinhosas, regadas de agradecimento. Entre tantas, simboliza as raízes e os troncos que formou a personagem  doce e empoderada que recebeu o título de Mulher do século XX. Teresa é tradição…

Eis aqui uma crônica escrita pelo seu amigo jornalista, o Pe. Antônio Aparecido Pereira, que foi lida no quadro “Dedo de prosa” no programa de rádio do renomado radialista Luiz Monteiro.Eu já tinha escrito o nosso papinho diário de hoje, quando me chega uma notícia que me deixou muito triste. Mas me chegou uma notícia daí de Carmo do Rio Claro. Morreu uma pessoa que levou o nome de nossa cidade por este mundo afora, com sua arte, com Sua doçura. Isso mesmo, com sua doçura. Morreu a Teresa Doceira, minha amiga querida, que veio de uma família.... Seus pais ultrapassaram os cem anos de idade, seus irmãos ultrapassaram de muito os noventa anos. A família Carvalho, com suas raízes na Rua do Porto e no Rosário, fez parte da história de Carmo do Rio Claro por sua arte culinária. Eu me lembro que Dona Gabriela, a matriarca da família Carvalho, perfumava toda a Rua do Porto quando mexia os tachos de goiabada que borbulhavam e nos enchiam a boca de água.

Teresa Doceira, o nome diz tudo. Ela ganhou este apelido de doceira pelo que ela fez a vida inteira: deliciosos doces, os mais variados, goiabada, compotas de frutas, doces de festa. Sua casa imponente em frente ao antigo Cine Guarani, casa que já foi casa paroquial, era lugar de passagem obrigatória dos que iam ao Carmo matar saudades e dos que vinham ao Carmo fazer turismo. Ela, sempre de bom humor, a todos atendia e mostrava sua cozinha na horta, com os tachos de cobre limpinhos de dar para pentear os cabelos. Ô Teresa. Que saudades de você, eterna menina que sabia curtir a vida. E ela não era apenas doceira. Era boa cozinheira e não foram poucas as vezes em que eu me deliciei com umas fatias de pernil bem temperado, acompanhando uma cachacinha de dar inveja nos anjos.

Às vezes eu fico pensando como Deus gosta de nossa cidade. Ele inspirou os fundadores dela a construí-la aos pés de uma bela montanha, a Serra da Tormenta. Ele quis primeira enfeitá-la com as águas do Rio Sapucaí e depois com o mar de Minas, a represa de Furnas. Ele colocou nela um povo trabalhador que cultivou suas terras férteis, que criou gado em suas campinas. E deu a este povo uma hospitalidade comovente. Em Carmo do Rio Claro, em qualquer casa de Carmo do Rio Claro, ninguém sai sem ter saboreado um cafezinho passado na hora, sem ter saboreado um biscoito, uma broinha, uma brevidade, uma quitanda, um daqueles magníficos doces de frutas secas ou frutas em calda. Louvado seja Deus e nossa Mãe Nossa Senhora do Carmo por tudo isso.

O Carmo precisa cultuar os heróis que o construíram, que o fizeram conhecido, que fizeram com que ele fosse ponto de chegada de tanta gente maravilhosa. É preciso lembrar os donos das grandes fazendas, é preciso lembrar os homens da cultura, é preciso conservar a memória dos grandes e pequenos personagens que fizeram do Carmo a cidade que ela é hoje. A Teresa doceira é um desses heróis. Começou pequena e se fez grande, mas sempre permaneceu o que sempre foi: alegre, bem-educada, sempre de bom humor, e empreendedora. Fica a minha, melhor, a nossa homenagem, minha, do Luiz Monteiro, e, eu quero crer, de toda a cidade. Sei não, gente, mas eu estou aqui pensando que ela já foi encarregada pelo Pai do céu para fazer os doces que alegrarão a eternidade feliz dos santos e santas que chegam todos os dias de mudança para lá.

Eu quero terminar este dedo de prosa com um poema. Teresa merece. O poema não é meu. É de Manoel Bandeira. É uma homenagem a Irene, uma negra chamada Irene, uma negra maravilhosa que povoou a vida do poeta. Vou cometer um pecadinho de trocar o nome de Irene por Teresa Doceira. Vamos lá:

Teresa Doceira.

Teresa preta, Teresa, boa, Teresa sempre de bom humor.

Imagino Teresa no céu!

"Licença, meu Santo!"

E São Pedro, bonachão:

"Entra Teresa! Você não precisa pedir licença!”.

Vai com Deus, Teresa dos doces, vai com Deus, doce Teresa. Já estamos com saudades!

 

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